quinta-feira, 4 de março de 2010

Relações Interpessoais

As relações que os seres humanos estabelecem entre si estão orientadas por factores de carácter cognitivo que os levam a interpretar as situações e organizar as respostas mais adequadas. A cognição social refere-se ao papel desempenhado por factores cognitivos no nosso comportamento social, procurando conhecer o modo como os nossos pensamentos são afectados pelo contexto social imediato e como afectam o nosso comportamento social. A cognição social é uma forma de conhecimento e de relação com o mundo social.

Processos de cognição social:

®     Impressões – consistem no processo de integração de uma pessoa numa categoria a partir dos dados que obtemos num primeiro contacto ou das informações que nos são fornecidas por outros.
Quando se trata de pessoas, a produção de impressão é mútua: eu produzo uma impressão sobre o outro e o outro também produz uma impressão sobre mim. O mesmo não acontece com os objectos: apenas nós formamos impressões dos objectos.
As impressões têm um efeito condicionante na relação pessoal que se estabelecerá no futuro: somos condicionados por este primeiro encontro e pelo modo como avaliamos a pessoa. Se mais tarde algumas das características que atribuímos ao outro são diferentes das que inicialmente formuladas, temos tendência a rejeitar as novas informações, mantendo a que ficou do primeiro encontro.

Categorização – processo subjacente à impressão que consiste no reagrupamento de pessoas, objectos, situações em categorias, a partir do que serão as suas semelhanças e diferenças.
A partir dos dados que recolhemos num primeiro encontro ou a partir das informações que recebemos das outras pessoas, classificamos a pessoa num grupo a que atribuímos determinados valores. Esta ideia global vai orientar o nosso comportamento, porque nos fornece um esboço psicológico da pessoa em questão. A categorização permite simplificar a complexidade do mundo social, ajudando-nos a orientar o nosso comportamento e a actuar de acordo com a avaliação que fizemos.
Para categorizar alguém procedemos a três tipos de avaliação:
         Afectiva (apercebemo-nos que gostamos, ou não, da pessoa)
         Moral (consideramos que a pessoa é boa ou não)
         Instrumental (se é competente ou incompetente, capaz ou incapaz)


A formação das impressões

Nós percepcionamos os outros a partir de uma grelha de avaliação que remete para os nossos conhecimentos, valores e experiências pessoais.
         Indícios físicos – remetem para características como o facto de a pessoa ser alta, baixa, gorda, magra, loura, morena…
         Indícios verbais – o modo como a pessoa fala surge como um indicador, por exemplo, de  instrução.
         Indícios não verbais – este indícios remetem para elementos, sinais, que interpretamos como indicadores: o modo como a pessoa se veste, como se senta, a forma como gesticula enquanto fala são elementos que nos levam a inferir determinadas características.
         Indícios comportamentais – são o conjunto de comportamentos que se observam na pessoa e que nos permite classificá-las. O modo como os comportamentos são interpretações varia de pessoa para pessoa e remetem para experiências passadas, para as necessidades, daquele que as interpreta.

Consequências das perturbações nas relações precoces

A necessidade de contacto físico com a mãe ou com outro cuidador está na origem da vinculação, sendo mais importante do que a alimentação na construção dessa relação. A privação deste contacto humano traduz-se em perturbações físicas e psicológicas profundas pois seria graças à relação privilegiada com um adulto que o bebé desenvolveria estratégias de adaptação ao meio.

René Spitz designou por hospitalismo as perturbações vividas por crianças a quem falta uma relação afectiva privilegiada com um adulto.

Esta perturbação ocorre sobretudo em crianças que estão numa instituição, privadas do contacto com a mãe ou outros agentes maternantes, e que se manifesta por atrasos no desenvolvimento físico e psicológico. Contudo, não se pode ser determinista dada a característica plasticidade do ser humano. Há crianças que, apesar de sofrerem situações muito penalizadoras, conseguem resistir e desenvolverem-se com equilíbrio. São chamadas “crianças resilientes”.

Relação de Vinculação

A vinculação é a necessidade de criar e manter relações de proximidade e afectividade com os outros, de o bebé se apegar a outros seres humanos para assegurar protecção e segurança. Esta relação é uma necessidade básica/primária que é decisiva para o desenvolvimento físico e psicológico do bebé.

Para assegurar estas relações de proximidade com as figuras de vinculação/protecção, os bebés recorrem a determinados esquemas comportamentais como chorar, sorrir, mamar, etc.

Investigação de Bowlby:

Bowlby desenvolveu um conjunto de investigações sobre as relações entre as perturbações de comportamento e a história da infância. Concluiu que a proximidade física do progenitor é uma necessidade inata, primária, essencial ao desenvolvimento mental do ser humano e ao desenvolvimento da sociabilidade. Defendeu que a vinculação aos progenitores responde a duas necessidades: protecção e socialização.

Outras investigações – Teoria da Vinculação

Uma psicóloga canadiana que trabalhou com Bowlby e que desenvolveu a teoria da vinculação concluiu que se a relação com os pais gera segurança, na medida em que o bebé está certo que a relação se mantém para além da separação, a criança sente-se mais livre para descobrir o mundo, para estabelecer outras relações. A partir de uma experiência em que a investigadora registou o efeito da separação e do reencontro de bebés com as suas mães, distinguiu 3 categorias de vinculação:
  • ®     Vinculação Segura – os bebés choram e protestam pela ausência da mãe e procura o contacto físico logo que ela se aproxima de novo (vinculação ideal)
  • ®     Vinculação Evitante – os bebés parecem indiferentes à separação da mãe e ao seu regresso
  • ®     Vinculação Ambivalente/Resistente – os bebés manifestam ansiedade mesmo antes da mãe sair e perturbação quando as abandona, hesitando entre a aproximação e o afastamento dela quando esta regressa

A qualidade das primeiras vinculações influencia as relações que a criança vai estabelecer no futuro. Estas serão como que um modelo do que se pode esperar dos outros.

Para estudar a relação dos bebés com os pais, a investigadora realizou a mesma experiência com o progenitor masculino e concluiu que o sofrimento era maior quando a mãe deixava a criança e a alegria maior quando ela voltava. Em idades precoces, a mãe parece mais importante.
Algumas críticas foram feitas relativamente à forma como se retiraram as conclusões da experiência, sobretudo se não se tiver em conta, para além de outros factores, as condicionantes de ordem cultural e socioeconómica.

A figura de Vinculação

O bebé estabelece laços de vinculação com a pessoa mais próxima que permanentemente cuida dele. Esta pessoa não terá de ser forçosamente a mãe biológica. Outros cuidadores podem substituir a mãe: há agentes maternantes, como os pais, outros familiares e outros elementos sociais que desempenham esse papel, funcionado como figura de vinculação.

Na sociedade actual em que as crianças estão inseridas em jardins-de-infância, são favorecidas outras relações que nos permitem falar de vinculações múltiplas.

Vinculação e Equilíbrio Psicológico:

O envolvimento físico e emocional que se estabelece na relação mãe-bebé permite que a criança cresça equilibradamente para fazer face às necessidades e dificuldades do dia-a-dia.
 A mãe, ao interpretar e ao responder satisfatoriamente às necessidades orgânicas e aos estados emocionais do seu filho, não só disponibiliza prazer e satisfação no presente como influencia muitos aspectos da sua constituição psicológica, do seu espaço psíquico no futuro.
As representações relacionais que se constroem durante a primeira infância contribuem para a estruturação da sexualidade. A boa qualidade da relação com a mãe manifesta-se numa relação mais equilibrada com o seu próprio corpo, sem tensão e inibições excessivas, o que leva a uma maior proximidade com os outros significativos.

A um processo de vinculação securizante corresponderá uma melhor regulação emocional: favorece a confiança em si próprio, a capacidade em ultrapassar as dificuldades, em se sentir bem consigo mesmo e com os outros. A confiança que se pode estabelecer nestes primeiros vínculos permitirá gerir com mais segurança os desafios que as interacções com os outros implicam. Assim, um vínculo seguro e confiante propiciará interacções sociais positivas e seguras, aumenta a confiança nos outros.

Individuação – necessidade primária de o ser humano criar a sua própria identidade, a sua individualidade, de se distinguir daqueles com quem mantém laços de vinculação.

Na base do processo de individuação está a vinculação. São as figuras de vinculação que favorecerão o processo de individuação, ao desenvolverem relações de segurança e de confiança com o bebé. É o sentimento de segurança e de confiança em saber que os pais permanecem que motiva a criança a ousar explorar o meio, a afastar-se – princípio do processo de autonomia.